Há algo profundamente inquietante em nosso tempo. Não é apenas o pecado, este sempre esteve presente na história da Igreja, mas o prazer velado quando a falha do outro vem à luz.
Basta uma acusação pública, um processo ou um escândalo atravessar os muros da Igreja para o tribunal das redes sociais entrar em ação. Fotos são expostas, sermões improvisados e reflexões publicadas. Por trás do discurso de zelo pela santidade, fica difícil esconder: há quem sinta satisfação na ruína alheia.
Os alemães chamam isso de Schadenfreude: o prazer diante da desgraça dos outros. Quando esse sentimento invade a igreja, a mensagem do Evangelho é desfigurada.
Tratar uma denúncia séria exige verdade, responsabilidade, arrependimento e consequências. A graça não anula a justiça, nem camufla o erro. Mas a justiça tampouco exige espetáculo. Há um abismo entre tratar o pecado e celebrar a queda do pecador.
Jesus enfrentou essa mesma mentalidade religiosa: gente que ficava à espreita, esperando uma falha. Não buscavam restauração, buscavam uma ocasião.
Talvez precisemos olhar menos para quem caiu e mais para o que a queda dele revela em nós. Por que a desgraça alheia desperta tanto interesse? Por que precisamos expor a foto do envolvido para ilustrar nossa “reflexão”? Será zelo pela verdade ou a satisfação secreta de ver que até os que admirávamos sangram?
A queda do outro costuma funcionar como um anestésico para a nossa própria consciência. Se ele caiu, meus erros parecem menores. Mas a cruz anula qualquer comparação: diante dela, todos somos pecadores necessitados de misericórdia.
A Igreja deve proteger as vítimas, apurar fatos e confrontar o pecado. Porém, precisa continuar acreditando no perdão e na restauração. Caso contrário, pregaremos uma graça suficiente para salvar pecadores, mas impotente para erguer os que caíram depois de salvos.
Paulo advertiu: “Se alguém for surpreendido em alguma falta, vós, que sois espirituais, restaurai-o com espírito de brandura; e guarda-te a ti mesmo, para que não sejas também tentado”. Gl 6.1.
O texto diz restaurai. Não exponham. Não comemorem. Não transformem a tragédia alheia em conteúdo.
Soldado ferido precisa de tratamento. Se cometeu um delito ou falta grave, deve responder por isso e reparar os danos; as vítimas devem ser acolhidas e protegidas. Mas ninguém deveria encontrar satisfação em ver alguém no chão.
No Reino de Deus, a queda de um irmão nunca deve gerar aplausos. Deve gerar temor, lágrimas e autoexame. E, onde houver verdadeiro arrependimento, deve haver também um caminho de volta.
Afinal, seguimos Aquele que não apenas confrontou os pecadores, mas deu a vida por eles. O Calvário muda completamente a maneira como lidamos com a vergonha do outro, porque diante da cruz descobrimos que não somos espectadores da graça, somos necessitados dela.
Silvany Luiz, Pr.


