O Novo Testamento revela que a missão de Deus não é confiada a indivíduos isolados, mas a uma igreja formada por Cristo e capacitada pelo Espírito Santo. A Igreja surge como resultado da obra redentora e, ao mesmo tempo, como instrumento para sua continuidade no mundo.
Desde o evento de Pentecostes, registrado em Atos 2, a Igreja se manifesta como um povo reunido e imediatamente enviado. A descida do Espírito Santo não apenas forma uma igreja, mas a impulsiona para fora, em direção às nações. Aqueles que foram alcançados pela graça tornam-se testemunhas do que Deus realizou em Jesus Cristo, conforme a promessa do próprio Senhor: “recebereis poder ao descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis minhas testemunhas”. At 1.8.
Essa igreja possui uma identidade essencialmente missionária. Ela não existe para si mesma, nem se define por estruturas ou atividades internas, mas por sua relação com Cristo e por seu envio ao mundo. Seguir a Cristo implica, necessariamente, participar de sua missão. Não há discipulado autêntico sem envolvimento com o propósito missionário de Deus.
A Igreja, portanto, vive em um movimento contínuo de comunhão e envio. Ela se reúne para ser edificada na Palavra, fortalecida na fé e conduzida pelo Espírito Santo, e se dispersa para testemunhar, servir e anunciar o evangelho. Essa dinâmica revela que missão não é um departamento da Igreja, mas parte de sua própria identidade e razão de existir.
No contexto do Sertão Nordestino, essa realidade se torna especialmente significativa. Ao longo da caminhada da Missão Alcançando o Sertão, temos visto que igrejas pequenas, muitas vezes com recursos limitados, podem se tornar instrumentos poderosos nas mãos de Deus quando compreendem sua identidade. Igrejas locais passam a ser pontos de luz em regiões marcadas pelo isolamento, levando o evangelho por meio da presença, do discipulado e da proclamação fiel.
Carnaúba dos Dantas, uma igreja que nasceu para ser enviada
Carnaúba dos Dantas, no Rio Grande do Norte, tornou-se para nós uma demonstração concreta desse princípio. Quando chegamos à cidade, em 1997, minha esposa e eu éramos muito jovens. Trazíamos conosco a formação recebida no seminário, conhecimento bíblico, algumas estratégias e experiência pastoral, mas nunca havíamos iniciado uma igreja do zero. Foi justamente naquele contexto que também nasceu a Missão Alcançando o Sertão.
O desafio era grande. A presença evangélica na cidade era muito pequena, com menos de sessenta crentes distribuídos entre duas comunidades cristãs. Carnaúba dos Dantas possuía uma identidade religiosa fortemente estabelecida, marcada por romarias, altares e expressões de religiosidade popular, tendo no Monte do Galo um de seus símbolos mais conhecidos. Foi nesse ambiente que chegamos para anunciar o evangelho.
Não tínhamos dinheiro nem estrutura. Contávamos com o apoio da Igreja Batista Cristo é Vida de Currais Novos que foi a nossa enviadora e com caravanas missionárias que periodicamente chegavam para realizar ações evangelísticas. Quando esses irmãos estavam conosco, sentíamos o conforto da comunhão e a força da cooperação. Entretanto, quando as caravanas partiam, uma realidade permanecia muito clara: nós continuaríamos ali. O impacto poderia durar um dia ou um final de semana, mas a missão exigia presença.
E foi justamente a presença que começou a abrir caminhos.
Passei a ensinar História em uma escola localizada em uma comunidade rural. Começamos a construir relacionamentos, entrar nas casas, realizar estudos bíblicos e anunciar intencionalmente o evangelho. Os primeiros cultos aconteciam na garagem de nossa própria casa. Não havia grande estrutura, mas havia a Palavra, relacionamentos, discipulado e a convicção de que Deus poderia fazer nascer uma igreja naquele lugar.
Pouco a pouco, pessoas foram alcançadas e um pequeno grupo começou a se formar. Nunca fomos uma igreja numericamente grande, mas procuramos ser uma comunidade intensamente missionária. Quem chegava era conduzido não apenas a frequentar reuniões, mas a compreender que havia sido alcançado por Cristo para também participar de sua missão.
Evangelizar e discipular caminhavam juntos.
Os novos crentes eram ensinados, treinados e envolvidos no testemunho cristão. Utilizávamos, entre outras estratégias, narrativas bíblicas e apresentações simples e claras do plano da salvação, de modo que pessoas comuns pudessem aprender a compartilhar o evangelho com outras pessoas. A igreja não deveria depender de alguns poucos evangelistas. Queríamos formar discípulos que soubessem fazer discípulos.
Essa visão também alcançou a zona rural. Percorremos comunidades, visitamos casas, anunciamos o evangelho a famílias e procuramos chegar a lugares onde dificilmente uma programação convencional de igreja chegaria. Pessoas se converteram, famílias foram alcançadas e novos líderes começaram a surgir.
Mais tarde, nasceu ali o Instituto Batista do Sertão, voltado à formação de obreiros. A igreja que havia começado com tão pouco passou a participar da preparação de pessoas para servir em outros lugares.
Então aconteceu algo ainda mais significativo: aquela igreja começou a olhar para além de si mesma.
A partir de Carnaúba dos Dantas, o trabalho avançou para outras cidades da região, alcançando lugares como Parelhas, Jardim do Seridó, Santana do Seridó, Acari, tantos outros lugares e hoje estamos no Sertão da Paraíba. O que havia começado com um jovem casal, poucos recursos, alguns estudos bíblicos e cultos realizados em uma garagem começou a produzir novos campos, novos líderes e novas frentes de proclamação do evangelho.
A igreja plantada começou a participar da plantação de outras igrejas.
Essa talvez seja uma das imagens mais bonitas de uma igreja enviada. Ela não considera sua própria existência o ponto final da missão. Ela entende que aquilo que Deus fez nela deve continuar por meio dela.
Décadas depois, olhar para Carnaúba dos Dantas torna essa verdade ainda mais preciosa. A igreja permanece viva e hoje é pastoreada por uma nova geração. O atual pastor é fruto daquele ambiente e sua esposa foi alcançada ainda criança pelo trabalho da própria igreja. Sua família foi evangelizada, ela cresceu participando das atividades infantis e, anos depois, tornou-se esposa do pastor da igreja que um dia ajudou a alcançá-la.
Há algo profundamente missionário nisso. O evangelho chega a uma criança, alcança uma família, forma uma geração e continua sua caminhada através dela.
Carnaúba dos Dantas também se tornou o solo onde a Missão Alcançando o Sertão começou a criar raízes. O que nasceu naquele pequeno contexto local avançou para outros lugares do Sertão. Por isso, quando olhamos para essa história, não vemos simplesmente uma experiência ministerial do passado. Vemos um princípio do Novo Testamento tomando forma diante dos nossos olhos.
A igreja de Atos recebeu o evangelho e o anunciou. Formou discípulos e enviou testemunhas. Alcançou cidades e, a partir delas, avançou para outras regiões. A igreja que compreende a Missio Dei percebe que não é proprietária da missão. Ela foi chamada por Deus, alcançada pelo evangelho e colocada no mundo para participar daquilo que o próprio Deus está realizando.
Carnaúba dos Dantas nos ensinou que uma igreja pode brotar mesmo em terra aparentemente seca, florescer sem abundância de recursos, avançar em contextos de resistência, formar líderes quando ainda é pequena e alcançar outras cidades antes mesmo de possuir grandes estruturas.
Porque, no final, a força da missão não está no tamanho da igreja, na quantidade de recursos ou na facilidade do campo. Está no evangelho, que “é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê”. Rm 1.16.
Assim, a formação de uma igreja enviada não é apenas um conceito teológico, mas uma realidade viva que se expressa na história. Onde a Igreja compreende quem é, torna-se fiel ao seu chamado. E onde vive como povo enviado, a missão de Deus continua avançando, de casa em casa, de comunidade em comunidade, de cidade em cidade, formando discípulos, levantando líderes e fazendo nascer novas igrejas.
Silvany Luiz, Pr.


